poesia em prosa quase todos os dias. cadernos de fausto. literatura. o poeta.

João Rafael Dionísio

12.9.09

caixa negra do absurdo

nascimentos grandes ferros
as pessoas quando sofrem
energias más, signos, suicídios
caminhos de ferro na noite

olhos cheios de monstros
uma revolta surda-muda
sonhar que temos asas, voamos
as ondas reflexos luzinhas
e um avião de passageiros despenhado

o exercício do medo prossegue
a resistência psíquica cede
a imaginação viaja cordilheiras
as estradas vão para longe

o caminho não é por aqui
o caminho ainda não existe
a caixa negra do absurdo

uma última paragem de autocarro
um balde cheio de doenças
m aquário onde os moribundos
caminhos podres, espectrais
e uma fechadura secreta.

6.8.09

o escriba escrito





irrealismo crónico e profundo

textos todos riscados

aqui e ali uma palavra

espreitando através do naufrágio

inoculado de ódio


cérebro raiz de gelatina

por vezes nada se aproveita

a paisagem a enferrujar indefinida

ao longe disparos desconvictos

e ao perto a radiação


o sangue nos seus circuitos

os pássaros com vertigens

mais palavras riscadas

uma palavra a espreitar

o arame farpado de rasurados

é a génese do não-nascer


as palavras são muito pequenas

as letras, essas, minhocas

um verme humano portanto

a secretar segredos

e a debater-se na escuridão

28.6.09

o coração do meu avô
duas folhas de celofane
ensanguentadas

18.6.09

convite

Convidam -se todos as pessoas do mundo
a aparecerem no dia 13 de Julho, segunda feira,
às 20horas, na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul
para uma apresentação oficial dos textos
produzidos e entrega dos diplomas
dos participantes do curso de escrita criativa
"construir a narrativa" ministrado pelo escritor
João Rafael Dionísio

12.5.09

anjo nítrico








o esqueleto das asas
nuvem com agulha de anestesia
aves metalúrgicas em estilhaços
uma criança morta pela mãe

arquitectura de cornijas criminosas
ecos de um cão fantasma
eu a voar por entre os telhados
esgares em voos venenosos
os ossos das asas esticados

capitel coríntio com caveiras
o inferno são os outros
um jardim erótico de canibalismo
frenesim inquieto e aracnóide
a personificação etrusca da morte
o fervilhar bactérias da cidade

um reptilíneo combate
torres de vigilância, o sol,
algures muito depois, o jardim
máscara da primeira guerra
um biblioteca cheia de raiva
e o paraíso ao virar da esquina

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